• Gelson Celistre

Exu Tiriri

(Publicado originalmente no blog Apometria Universalista em 14/2/2020)


Num atendimento que fizemos o consulente é da Umbanda e houve uma situação em que ele viu um espírito acorrentado na casa dele. Um dos exus do terreiro que ele frequenta pediu para atuar no caso e tirou o espírito de lá. Fomos verificar o que tinham feito com o tal espírito, se haviam o libertado ou aprisionado em outro local e vimos que de fato eles tiraram o espírito e o libertaram, era uma pessoa encarnada que havia sido aprisionada em desdobramento.

Como estou escrevendo sobre exus esses dias o puxei, incorporei ele num médium e disse que queria falar com ele, que logo perguntou se eu queria trabalhar com ele. Disse a ele que não, que apenas queria conhecer a história dele para contar aos meus leitores e ele assentiu.

Perguntei por que ele se chamava de Exu Tiriri e ele disse que para ele tanto faz o nome, mas que gostou desse, se querem chamá-lo assim ele não se importa. Disse que no astral não se apresenta como exu ou qualquer outra entidade, que o interesse dele é trabalhar e se aparece oportunidade na casa ele se prontifica, os nomes são as pessoas que definem, ele apenas concorda. Ao contrário de outros espíritos que fazem questão de "ostentar" algum título, principalmente se o título for de "exu", esse parece que não estava preocupado com isso, a intenção dele era unicamente de trabalhar. Perguntei a ele se fazia trabalhos para o mal e ele disse que não, que se o médium quisesse algo assim ele se afastava de perto e vimos que ele dizia a verdade.

Uma coisa rara e que até me deixou feliz é que vimos que o terreiro onde esse exu trabalha é do bem mesmo, os dirigentes são preocupados com o tipo de trabalho que é feito lá e não permitem magia negra, apesar de vermos que alguns espíritos no astral da casa se pedir eles fazem. Bem, mas perguntei a esse Exu Tiriri o que ela fazia na sua última encarnação e ele só lembrava que era médium de terreiro, então dei um comando para ele lembrar e aí se descortinou também para o médium no qual ele estava incorporando sua história. Ele era um negro escravo, nascido na senzala, era a segunda geração da família nascida em cativeiro pois sua mãe já nascera na senzala também, mas seus avós vieram da África e tinham conhecido a liberdade antes de serem escravizados. Ele aprendeu com sua mãe sobre a religião e no terreiro dentro da senzala ele recebia as entidades e trabalhava, era dedicado e humilde. Até que ele e uma negra da Casa Grande se apaixonaram, queriam ficar juntos, mas o sinhozinho filho do dono da fazenda não permitia porque a negra era dele (sexualmente) e ele não aceitaria que ela se deitasse com os negros, era só dele. O jovem escravo se revoltou com a proibição e foi duramente castigado, lhe bateram muito e o prenderam fora da senzala, deixaram-no vários dias sem água e comida e ele acabou morrendo. Com o coração cheio de mágoa e sofrimento, no astral ele começou a trabalhar em terreiros, e quando viu terreiros onde havia gente branca, fez questão de trabalhar com eles, porque não queria mais nascer como preto, não queria ser escravo novamente. Ele queria trabalhar muito para os brancos, queria crias laços com eles para nascer entre eles, não queria mais nascer preto.

Já prendemos vários seres que se diziam exus, mas nesse caso o que fizemos foi libertar esse espírito conhecido como Exu Tiriri. Apesar de estar trabalhando porque queria, o motivo dele estar num terreiro de brancos era uma vilipendiação de sua origem. Quando o fiz lembrar de sua vida passada ele teve um choque emocional e percebeu que estava renegando sua origem. Ele foi acolhido pelos espíritos ancestrais africanos que trabalham conosco e provavelmente não vai mais trabalhar em terreiros, pelo menos não pelo mesmo motivo de antes.

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