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Yanomami

Atualizado: 27 de jan. de 2023

As recentes notícias sobre a crise humanitária dos yanomami, e creio mesmo que podemos chamar de genocídio, demonstra o quão atrasados e bárbaros ainda somos. Em que pese que existe um órgão específico do governo que deveria cuidar das populações indígenas, ficou evidente que isso não estava acontecendo, mesmo com os apelos e solicitações de entidades indígenas e ONGs que atuam em defesa desses povos. Vergonhosamente autoridades públicas de várias esferas e poderes se omitiram no cumprimento de seus deveres e permitiram que a situação chegasse a esse estado lamentável, para dizer o mínimo.

Os yanomamis habitam o norte do Brasil na divisa com a Venezuela, nos estados de Roraima e Amazonas, e eu moro no extremo sul, no estado do Rio Grande do Sul. Quando eu era jovem eu migrei para Roraima, eu tinha vinte e poucos anos, e logo que cheguei lá eu passei num concurso público da Fundação Nacional de Saúde - FUNASA para trabalhar no Projeto Yanomami. Cheguei a trabalhar vários meses nesse projeto, mas saí porque era um contrato temporário e eu passei em outro concurso público federal que era para o quadro permanente de pessoal.

Porém, durante o tempo que eu trabalhei no Projeto Yanomami, apesar de ser apenas um assistente administrativo, eu tive oportunidade de visitar algumas aldeias in loco pois fiquei algum tempo trabalhando num posto avançado da FUNASA na Serra do Surucucu, onde tem um quartel do Exército e da Força Aérea, e também um posto da FUNAI. Local de difícil acesso no meio da selva amazônica onde só se chega de avião ou helicóptero. Isso foi há 30 anos.

Mesmo depois de sair da FUNASA eu morei vários anos em Roraima, estava cursando a faculdade de Antropologia, e acabei estudando um pouco mais sobre os indígenas. A região onde os Yanomamis vivem é muito cobiçada pelos garimpeiros, mas existem outras etnias que vivem na região, os Macuxi, Wapichana, Taurepang, Ingaricó, Patamona, Ye`kuana, Sapará e Wai-Wai que vivem em constante atrito com fazendeiros que invadem suas terras. Assassinato de indígenas, estupros, invasão e destruição de aldeias, ocorriam constantemente e muitos casos nem chegavam a público. Lembro que uma das pessoas mais atuantes na causa dos yanomami era a fotógrafa ativista Cláudia Andujar, muito do que foi feito por eles foi devido a atuação dela.

Para se ter uma ideia em 1988, quando houve uma corrida do ouro para Roraima, a quantidade de ouro extraída da área indígena yanomami era de 30 quilos por dia, mais do que o dobro do que a Serra Pelada produzia na época. O aeroporto de Boa Vista, capital de Roraima, operava cerca de 240 pousos e decolagens por dia e só perdia para o aeroporto do Galeão no Rio de Janeiro que nos meses de pico operava 290. Havia mais de 200 aviões operando em Roraima e 13 helicópteros. Isso tudo oficialmente, pois lá existem centenas de pistas de pouso clandestinas e o número de aeronaves certamente era muito maior, assim como a quantidade de ouro e diamantes produzida que em sua maioria eram contrabandeados para fora do país sem nenhum controle. Esse é o motivo de quererem exterminar os yanomami.

Quando fui escalado para trabalhar no posto na selva me deram vários textos para ler sobre os yanomami e um que eu nunca esqueci se chamava A fumaça do metal, do antropólogo Bruce Albert, que encontrei na internet agora, e reproduzo o trecho que ficou gravado na minha memória:


"Quando os brancos abriam as caixas nas quais guardavam seus bens, saía uma fumaça (poeira) cheirosa. O perfume era terrivelmente forte, e havia todos aqueles facões; ficávamos intrigados: "será que o perfume era dos facões?” Os brancos diziam: "venha cunhado" e nós respirávamos aquele cheiro. Era na verda­de a fumaça das ferramentas. A fumaça saía dos facões. Depois de pegar os obje­tos que os brancos me deram, saí imediatamente do acampamento deles e vomitei. Estava com medo, meu peito estava fraco. Então nos reunimos, para lavar os objetos que tínhamos conseguido num riacho próximo. Esfregamos tudo com lama e com areia. A fumaça era doce e enjoativa como a que escapa dos motores de avião. Deixávamos os objetos mergulhados na água dos riachos. Só os pegávamos bem mais tarde. Quando eram levados sem precauções, a pessoa logo adoecia. A fumaça entrava em nós, aquela fumaça cheirosa do metal que estava dentro das caixas de facões. Ela ficava na parte de cima, dentro de um pacote de papel gros­so, e impregnava o conteúdo das caixas. Quando era liberada, causava a nossa morte. Tínhamos febre. Nossa pele começava a cair. Era horrível. Os velhos se perguntavam: "o que fizemos nós para que nos matem?" E diziam "não vão se vingar dos brancos!". Nós, os mais jovens, queríamos flechá-los, mas os velhos insistiam: "não os flechem, eles também são 'gente da espingarda', vão nos atacar com suas espingardas” (Severiano, yanomam originário do alto Catrimani, entrevistado em Toototobi, 1981)."


Os primeiros contatos dos yanomami com os brancos foram no início do século XX, mas eram esporádicos e se intensificaram mais nas décadas de 1960 e 1970. No início eles pensavam que os homens brancos eram fantasmas, depois que eram demônios, acho que eles estavam certos. Na época quando voltei do posto na selva fiz um relatório para a FUNASA onde denunciei algumas irregularidades, inclusive cheguei a me indispor com um oficial da FAB e alguns funcionários da FUNAI que atuavam na Serra do Surucucu, mas fora isso não tinha muito mais que eu pudesse fazer.

Embora esse período da minha vida estivesse adormecido em minha mente, as recentes notícias sobre os yanomami me fizeram lembrar. Eu ainda não posso fazer nada pelos yanomami aqui na dimensão física, mas na dimensão astral eu posso. Identificamos duas forças antagônicas se enfrentando no astral, uma que quer exterminar essa etnia, ligada a pessoas inescrupulosas que tem interesses escusos em explorar as riquezas do território no qual os yanomami vivem, essa bem organizada e que existe há décadas, e outra incipiente que está se formando agora que vieram à tona as atrocidades que estavam sendo cometidas contra os yanomami.

Essa força de extermínio contra os yanomami no astral era composta por mais de 10.000 espíritos de homens brancos, que mantinham aprisionados mais de 50.000 espíritos yanomami que foram assassinados pelos brancos, desde que se intensificou a corrida pelo ouro em Roraima. Nós prendemos os homens brancos e libertamos os yanomami presos, que tiveram que ser atendidos por equipes médicas que se deslocaram para lá no astral. Depois disso eles serão realocados nas aldeias dos que estão vivos, para lhes fortalecer e reforçar sua presença na região. Os brancos foram encaminhados para reencarnação e criamos um campo de força ao redor da área indígena para os proteger.

No passado, no período da colonização do Brasil, eu já fui um homem branco que invadiu terras indígenas para extrair suas riquezas, roubei uma mulher indígena e usei isso como desculpa para reivindicar a posse de uma área onde viviam cerca de 70 famílias, mais de 350 pessoas, que eu expulsei de suas aldeias para me apropriar da terra. Alguns dos erros que cometemos nos doem na alma, mas temos que expor nossa sombra à luz para podermos evoluir.

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